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Mostrando postagens de Maio, 2017

Quando eu chegava

Quando eu chegava, era a primeira cara que eu via ao pé da porta do ônibus. Sempre à frente. À frente até dos taxistas, que queriam primeiro o cliente. Chegava a atrapalhar a saída das pessoas. Um abraço e a frase Oi, minha filha! E o sorriso mais lindo do mundo que eu já vi até hoje. Até porque sorriso sincero não tem igual. Tomara que o José tenha esse sorriso. A camisa aberta, o boné e a chinela. Depois me ajudava a pegar a mala no bagageiro, mas era eu que ia levar, aí ficávamos naquela teimosia por alguns segundos. Eu deixava levar a mochila. A vó tinha ficado em casa, assistindo televisão. Não ouviu quando ele chamou. Mas às vezes ela ia. Ficava esperando no carro. Perguntava se eu queria comer logo pela rua. Eu dizia que ia esperar pra ver o que tinha em casa. Perguntava mais cinco vezes. A gente morava há menos de cinco minutos da rodoviária. Ele se aborrecia. Ô, que a Eunice tá demais! Eu dizia que tinha que ter paciência. Depois entendi que ele era a pessoa mais paciente do…

Eteiliane

Eteiliane já pintou as pontas do cabelo de loiro. Mais para branco. Eu não puder evitar.  Tem quinze anos. Mas pintou desde os doze. Ela disse que a cabeleireira fez de graça. Eu acreditei. O pai dela morreu quando ela tinha seis anos. De lesão pérfuro-contundente. Assim me disseram. Ele não andava mais em casa havia alguns anos. Mas trabalhava. Eu mesma criei a menina desde que ela nasceu. A mãe abandonou. Encontra-se em local incerto e não sabido. Ela quis saber da mãe, a Leiliane. Eu inventei uma história. A verdade é que ela nunca quis a menina. Mas ficou com os outros filhos. E foi embora. Disse que o Kraus que ia cuidar dela. Ele que ela era o pai. Ele sempre desconfiou que a filha não era dele. Me disse várias vezes. Até um dia em que apareceu parecido com drogado. E eu não quis mais em casa.  Saiu com a bolsa dizendo que ia sem perder nada. A filha não era dele, afinal. Ela ouviu. Mas era bem pequena. Será que ainda ficou com isso na cabeça? Porque, quando soube da morte, ela…