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Acorda!

Quando acontecem coisas ruins, nós tomamos um choque na espinha, dizendo : - Acorda!. Desamparados na segurança do nosso lar, pensando no fim do mundo... Nossa cabeça lembra da revolta que existe nela, com todas as coisas que incomodam nesse mesmo mundo que está para se acabar (mais uma vez). Lembramos que deveríamos fazer desse jeito, lutar por isto ou aquilo, votar assim ou assado, fazer campanha de conscientização, amar mais ao próximo. Talvez esta última ação seja a mais necessária entre nós. Assim não teríamos que perder tanto nosso tempo a desvendar falcatruas das criaturas em quem votamos, porque elas amariam a nós e não apenas a elas mesmas e ao dinheiro e não dariam a desaguar sua ambição na desgraça alheia, como se fossemos qualquer pedaço de carne, e não viva alma que não se corrompe (não mais)! Assim poderíamos mudar o mundo verdadeiramente, eternamente, tendo paz em nossos corações de sabermos ser solidários. Seríamos uma mesma raça, povo, língua, religião, e todas as dif…

Eterno.

Eu te pediria que me ligasse cem vezes ao dia. Só pra dizer oi e perguntar o que eu estava fazendo ou onde eu estava. Eu nunca deixaria chegar na caixa postal, porque você não gostava. Que me chamasse cinquenta vezes só numa tarde, do pé da escada, ou da calçada, independentemente do que eu estivesse fazendo, eu iria escutar o que tinha pra me dizer. Que tocasse a campainha bem forte, não me importaria com o exagero. Eu te perguntaria quantas avoantes caçou, mas não reprimiria a conduta criminosa, eu mesma faria pra comermos com muita farinha. Eu andaria de carro com você na velocidade dez, sem a menor impaciência. Aguentaria discursos sobre preocupações com minhas latinhas, deixaria mesmo de bebê-las se isso te fizesse dormir mais em paz. Almoçaria às onze da manhã, jantaria às cinco da tarde, com a maior fome do mundo. Eu te ligaria todas as manhãs, tardes e noites, a cobrar, porque você pedia. Contaria meu dia, tudo que fiz, estudei, comi, dormi e sonhei. Deixaria você me cheirar …

Volta,

Volta para a nossa casa, as gatas deram cria e estão com fome, esperando você colocar a comida. Miam alto, mas eu não escuto. Volta, pois o cachorro começou a estranhar as pessoas nas esquinas, ele que sempre tem os olhos tão dóceis como os seus. Volta, pois nossas cadeiras estão sem ver a rua, sem o balanço diário que nós impomos a elas. Volta, porque nossa casa é grande e, sem seus passos ecoando devagar no meio dela, fica tudo tão vazio. Volta, pois esse piso antigo ainda quer ver os passos dos nossos bisnetos, e eles querem correr no quintal e subir no pé de siriguela, mas isso nunca vai ser a mesma coisa se não for com você a explicar sobre tudo. Volta, para então eu cantar uma música antiga que eu compus, enquanto você assiste ao Jornal Nacional, para eu ouvir teu resmungo e baixar meu tom. Para que eu ronque alto ao teu lado, até você me cutucar, porque eu acabei te acordando com meu desmantelo. Volta para nossa mesa. Em tua cadeira mais baixa, porque você é mais alto, só cabe…

Tangerina.

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Entrei no carro, mordi um pedaço do picolé. De tangerina. Dei partida, liguei o rádio, não tinha mais um rio na minha visão, talvez apenas um pequeno lago. Todo mundo cansa um dia de sofrer, eu pensei. Até mesmo eu, que gostava de me arriscar pelo amor. Sempre. Hoje não. Cheguei em casa cantando e pensando em coisas boas. Não deitei na cama, só troquei de roupa e vim viver essa vida, que, afinal, era minha (e de mais ninguém).

Debaixo d'água.

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O melhor jeito de chorar é debaixo d'água
Parece que ela se confunde com as lágrimas,
como se fossem feitas do mesmo material
Incolores, inodoras
Os olhos ficam vermelhos,
mas pode ser sabão
As gotas escorrem,
mas pode ser que não estejam caindo dos olhos
A forma de saber é pelo gosto,
a lágrima não é insípida
Um beijo, talvez
Mas as pessoas sempre fingem que é só água
E, então, esconder fica mais fácil
Debaixo d'água.

Como se o mundo fosse acabar.

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Vamos pegar o carro e sumir no horizonte
Como nunca fizemos Ouvindo sertanejo, tudo bem E um poucos das minhas músicas desconhecidas (para você) Vamos cantar alto e loucamente Como se amanhã o mundo fosse acabar Vamos fingir que não precisamos de um emprego Ou que nossos bolsos estão cheios de dinheiro E nos preocupar apenas com nossos corações,  que estão cheios de amor Vamos ser felizes como se não houvesse mágoas em nosso peito  Ou cicatrizes em nosso olhar Vamos parar em uma praia deserta Como se o mar fosse só nosso Deitar na areia, olhar as estrelas, esperar a lua ficar cheia, o sol se levantar Vamos fugir das nossas vidas  Como se elas não existissem no singular.

Clichê

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Eu faço um poema clichê
mais uma, não a última das vezes
para dizer coisas guardadas aqui
na alma, no fundo do coração
para soltar as raízes das dores profundas
que se fincaram nas artérias,
ventrículos e cavidades.

Com palavras repetidas
contando a mesma história
de um amor tão despedaçado e triste
falando esse desperdício de amar.

Tecendo esperanças bobas
de que um dia a caneta vai escrever
sobre alegrias perenes, eternas
não somente a respeito de espaços vazios
cada vez maiores e sombrios.

Imaginando um mundo novo
com uma história mais bela
feliz não só por um dia, mês ou ano
mas por segundos a fio
até que haja cabelos brancos.

Querendo dizer palavras sobre velhinhos
sentados no banco da praça
conseguindo apenas escrever meias verdades
sobre meus olhos marejados e sozinhos
e minhas vogais aleatórias e sempre mais mudas.