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Mostrando postagens de Outubro, 2011

Furto.

Tirou uma telha, depois outra, pulou de uma vez, sem medo. Cabeça confusa, visão embaralhada. A tevê, o som, velhos, mas dariam uns trocados. Mais dinheiro para trocar por menos realidade. E o bujão de gás. Pesado, mas não sentia. Levou tudo. A mulher chegou em casa, depois de mitigar um pouco a tristeza na casa da irmã. Sozinha, como sempre era. Chorou. Meu som, minha tevê, meu bujão. Levaram tudo. Pouco dinheiro. Ficou mais triste e só do que era de costume. Ele ouviu dizer. Rapaz, ela tem depressão. Meu filho, devolva as coisas da Dona Tetê, a coitada vive só, e, agora, nem televisão tem mais. Pensou. Lembrou da casa, da solidão dos móveis. Da sua própria solidão viciada. Vai lá, menino, pega aqui essa televisão e devolve lá pra Dona. Não diz que fui eu, viu, moleque?  Se tu disser, já sabe, né?! Sei, sei, macho, pode deixar. Tia, tá aí tua televisão. De noite, abraçada com a  solidão, ela tinha, pelo menos, uma televisão. E ele, um pouquinho menos de peso no coração.

Pra ser feliz.

Se o que me fizesse feliz fossem as estrelas, eu as teria, e o que me faria feliz seria o sol. E eu o teria a iluminar todos os meus dias e as minhas noites, mas o que me faria feliz seria a lua. Eu dormiria em suas crateras e tomaria café da manhã com São Jorge, e o que me faria feliz seria o mar. Quando eu o tivesse, seriam as nuvens do céu que me fariam feliz. Voaria de uma em uma e faria chover quando eu quisesse. Mas, então, o que me faria feliz seriam as pessoas, e eu as teria todas para mim, me fazendo o tempo todo feliz.  E eu seria feliz se fosse só. Quando eu fui feliz sozinha, eu não fui feliz, assim como não durou muito a minha felicidade quando eu tive o sol, as estrelas, as nuvens, o mar, a lua... Nada me fazia feliz até eu ser só. Em cada pessoa que eu tive, encontrei um motivo para me deixarem menos felizes, porque as pessoas são assim. E, depois que eu tive as pessoas e tive a mim mesma, eu vi que eu era igual a elas. Na minha solidão, achei um jeito de poder ser fel…

Tua voz.

E fui buscar todas as músicas
pra ver você cantando uma a uma
E pra que a gente pudesse cantar juntos
Como naquele dia
e naquele outro.
E queria que esse dias voltassem,
mas parece que eles só ficam mais esquecidos no passado
E eu tenho medo de perdê-los pra sempre
e nunca mais tê-los de volta.
Então eu ouço
mais e mais, o dia inteiro
E lembro de você
e vejo a sua voz
e escuto o seu rosto
E queria que fossem as nossas vozes,
mas isso eu não posso ter,
então eu preciso dessas músicas
pra nunca esquecer
do porquê de eu nunca esquecer
da tua voz.

Botão de rosa.

Imagem
Se você me acha assim insensível, eu que era sentimentos aflorando a todo instante, digo a você que resolvi me fechar como um botão de rosa por uns instantes, quem sabe mais que uns.
Se as perguntas não saem mais da minha boca, eu digo que meus ouvidos não suportam mais ouvir as mesmas respostas.
E se as respostas que eram por mim proferidas não são mais dadas a todo instante, é que cansei de saber responder tudo a toda pergunta.
Não sei mais. Não quero mais saber.
Se eu pareço bem, se pareço não sofrer, é porque resolvi esperar.
Sofrimento em vão já tive demais.
As lágrimas, elas cansaram de descer e se acumulam dentro do meu corpo, até que precisem sair de verdade. Pois pareço mesmo despreocupada, sem saber o que se passa ou o que poderá se passar.
E vou continuar assim, até que vocês me mostrem que levam a sério todos aqueles sentimentos, mas se só não sabem o que fazem com eles, mais uma vez, deixe-os aqui, muito bem guardados.

Um a um.

Os caminhos vão se separando  dia  a dia, mês a mês, ano a ano, vida a vida.
E a vida, que era minha e sua, agora é só minha, e a sua, só sua.
E eu que sabia tudo sobre você, sei pouco sobre mim, menos sobre você.
A você que eu contava meus segredos, agora os escondo no peito, e os seus você desata a quatro ventos, mas eu não os sei mais.
Das dores compartilhadas, eu não as sinto mais, mas sofro mais com as minhas, porque agora eu as tenho só pra mim.
Os sorrisos que eu te dei, hoje, eu guardo dentro da cara, e a tua boca se abre menos, porque o meu sorriso é que a alargava mais.
De tudo que era meu e teu, teu e meu, só restou um a um, e a gente se encontra na rua e não se lembra do dia em que nós dois é que éramos um.

Sonho.

Sonhei um sonho lindo, daqueles que, além da felicidade que aflora na hora do sonho, ainda te deixam felizes o resto do dia inteiro. Sabe?
Era tão simples, bobo, que, se eu contasse, diriam :" - mas esse é um dos teus melhores sonhos?"
É. Esse é um dos sonhos que eu mais queria transportar pra realidade.
Pegar uma agulha, furar a cabeça e deixar que ele saia e se materialize.
Em vez de na minha mente, diante dos meus olhos, mas sem que eu pudesse me ver, porque eu o estaria vivendo.
Mas eu acordei, e, mesmo tendo me deixado feliz, ele foi-se embora. Era só um sonho...

Por que?

Por que eu esconderia, omitiria, diria não, querendo dizer sim?
Por que me faria de desentendida, desconversaria, fugiria?
Por que sairia de perto e entraria na porta mais próxima?
E por que calaria, falaria menos ou mais do que não me importa?
E fingiria ser outra por quê?
E por que me enganaria?
E por que diria que não queria?