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Alegria

Adorava as pedrinhas de areia esfoliando o joelho.
Catar conchinhas diferentes e pedras que rolam por ali há muitos anos.
Pegar jacaré e subir à superfície depois que veio a onda grande.
Sentar na beira e ouvir a voz daquela onda pequena que era quase muda.
Sentir a espuminha bater nos pés clareados pelos grãos.
Boiar na água com o sol queimando a ponta do nariz grande.
Ficar "estatelada" sem se preocupar com os sinais na pele.
Encher-se se vitamina D.
Ficar com o cabelo duro de sal, a canela seca de sol.
A canela preta de sol.
Andar com os pés vagarosos ou rápidos, como quisesse.
Deixar-se ser enterrada pelas mãozinhas pequenas.
Construir castelos e ocas de índio, com pontes e riachos.
Uma piscina no meio do mar, onde cabem nós três.
Era bom ser grande e cavar mais o buraco.
Correr feito boba pra alegrar a cachorra maluca.
Olhar o céu ficar laranja, rosa, azul, preto.
A lua de um lado, o sol do outro.
Ver a lua nascer com o maior brilho que já houve.
Tantas estrelinhas a bri…

Meus sentimentos

"Meus sentimentos". A todo instante. Era melhor mesmo. "Meus pêsames", como diz a palavra, manifesta um pesar. Parecia que eu não conseguia sentir esse peso. Sentia sentimento, mas não havia muitos quilos. "Meus sentimentos" expressava um genuíno compartilhar emoções. Um entendimento, um afeto. Como se a pessoa dissesse que sabe do seu sentimento, mesmo que não seja você. Ela não sabe, mas deseja dizer que sabe do que você pode estar sentindo. E, por mais que tudo digo ao contrário, as pessoas são expressões de solidariedade. Porque nada mais no mundo pode sentir igual, a não ser uma pessoa, que tem (ou deveria ter) sentimentos. Ou "sinto muito". Eu sempre pensava que, na língua portuguesa, não há uma expressão tão boa quanto a inglesa "I'm so sorry". Talvez "sinto muito" seja quase que tão boa. Mas não falamos, não se vê alguém dizendo "sinto muito" por aí. Quem me disse "sinto muito" foi um professor…

Pedrinha que brilha

O vô queria porque queria me dar um anel de formatura. Com o rubi em cima. Pra minha doutora. Não precisa, vô, eu dizia desde que passei no vestibular. Eu nem vou usar. Não acho bonito. A mãe viajou pra Minas. Em Minas, a gente sabe que tem (tinha) muito ouro. Foi perto de eu me formar. Ela veio me dizer que o vô mandou comprar o anel. Sabia que eu não queria, e agora, o que ia fazer? Mandei comprar um anel barato, bonitinho, pra ele ficar feliz (e eu também). Ia servir da mesma forma, satisfazer a vontade dele e suprir a minha falta de vontade de andar com um rubi no dedo. Era lindo, a mãe acertou! Só uma florzinha talhada em ouro com uma pedrinha brilhante em cima (que não era vermelha). E foi tão barato! Minas parece que ainda tem ouro. Fingi que ainda não tinha visto quando o vô veio me dar. Dei o mesmo sorriso que quando vi a primeira vez. Achei mesmo lindo. Ele ficou contente demais. Toda vez que eu ia lá, botava o anel, pra ele ficar mais alegre. Fiz o juramento com ele. Esque…

Nós somos o mundo.

Eu acho que a gente não é só isso. E eu queria ser assim. Eu acho que há mais, que é mais. Como a gente poderia pensar que era só essa carne e esse corpo? E que, além de uma ideia "só" de Deus, a vida era mais que só sermos nós? Que éramos só um eu no meio de um todo, sem o qual não éramos nada? Mais que uma foto, um sorriso feliz, um corpo magro e triste ao mesmo tempo? Que só podíamos ser se alguém visse que a gente era. Ser feliz, ser livre, ser esportivo, ser inteligente, ser estudioso, ser bom filho, ser bom pai. Mas só se alguém visse. Ninguém podia ser por si só? Todo mundo me vê, mas eu não me vejo. Era o que a gente mais sentia. Porque todos me veem, mas ninguém me sente, nem eu mesmo. Só finjo que sinto e fico aqui mostrando tudo que não sinto, acabando com os sentimentos... Então, a gente não precisava ser, mas mostrar que era. Um ciclo. Se todos fôssemos, sem precisarmos ser, se todos vivêssemos, sem precisar mostrar o viver. Todo mundo saberia, porque nós somos…

Vazia.

A vida conseguia ser simplesmente vazia como meu estômago naquela manhã. Roncou bem cedo, às seis horas. Vergonha do barulho, mas ainda não de estar embaixo do lençol. Conseguia ser vazia como aquele copo de água ficou quando eu terminei de beber. A sede não passou, mas foi embora a vontade de estar naquela cama estranha. Vazia como o banheiro depois que eu me molhei no chuveiro, com a porta fechada, escondendo meu corpo, mas querendo lavar era a alma que insistia que estava suja. Mas a água não entra dentro de nós. Vazia como o lugar que eu deixei depois de sair, não levando nada nem restando nada meu ali. Nem minha própria lembrança. Só uns fiapos de cabelo, que sempre caíam mais a cada dia. Vazia como o elevador quando eu sai. Ficou sozinho, mas ele não sentia. Vazia como o hall de espera, depois que eu pedi o endereço ao porteiro e sai para a rua também vazia.
Vazia como sempre eu ficava, porque só pensava, mas não fazia. Vivia vazia.

Quando eu chegava

Quando eu chegava, era a primeira cara que eu via ao pé da porta do ônibus. Sempre à frente. À frente até dos taxistas, que queriam primeiro o cliente. Chegava a atrapalhar a saída das pessoas. Um abraço e a frase Oi, minha filha! E o sorriso mais lindo do mundo que eu já vi até hoje. Até porque sorriso sincero não tem igual. Tomara que o José tenha esse sorriso. A camisa aberta, o boné e a chinela. Depois me ajudava a pegar a mala no bagageiro, mas era eu que ia levar, aí ficávamos naquela teimosia por alguns segundos. Eu deixava levar a mochila. A vó tinha ficado em casa, assistindo televisão. Não ouviu quando ele chamou. Mas às vezes ela ia. Ficava esperando no carro. Perguntava se eu queria comer logo pela rua. Eu dizia que ia esperar pra ver o que tinha em casa. Perguntava mais cinco vezes. A gente morava há menos de cinco minutos da rodoviária. Ele se aborrecia. Ô, que a Eunice tá demais! Eu dizia que tinha que ter paciência. Depois entendi que ele era a pessoa mais paciente do…

Eteiliane

Eteiliane já pintou as pontas do cabelo de loiro. Mais para branco. Eu não puder evitar.  Tem quinze anos. Mas pintou desde os doze. Ela disse que a cabeleireira fez de graça. Eu acreditei. O pai dela morreu quando ela tinha seis anos. De lesão pérfuro-contundente. Assim me disseram. Ele não andava mais em casa havia alguns anos. Mas trabalhava. Eu mesma criei a menina desde que ela nasceu. A mãe abandonou. Encontra-se em local incerto e não sabido. Ela quis saber da mãe, a Leiliane. Eu inventei uma história. A verdade é que ela nunca quis a menina. Mas ficou com os outros filhos. E foi embora. Disse que o Kraus que ia cuidar dela. Ele que ela era o pai. Ele sempre desconfiou que a filha não era dele. Me disse várias vezes. Até um dia em que apareceu parecido com drogado. E eu não quis mais em casa.  Saiu com a bolsa dizendo que ia sem perder nada. A filha não era dele, afinal. Ela ouviu. Mas era bem pequena. Será que ainda ficou com isso na cabeça? Porque, quando soube da morte, ela…