Furto.


Tirou uma telha, depois outra, pulou de uma vez, sem medo. Cabeça confusa, visão embaralhada. A tevê, o som, velhos, mas dariam uns trocados. Mais dinheiro para trocar por menos realidade. E o bujão de gás. Pesado, mas não sentia. Levou tudo.
A mulher chegou em casa, depois de mitigar um pouco a tristeza na casa da irmã. Sozinha, como sempre era. Chorou. Meu som, minha tevê, meu bujão. Levaram tudo. Pouco dinheiro. Ficou mais triste e só do que era de costume.
Ele ouviu dizer. Rapaz, ela tem depressão. Meu filho, devolva as coisas da Dona Tetê, a coitada vive só, e, agora, nem televisão tem mais. Pensou. Lembrou da casa, da solidão dos móveis. Da sua própria solidão viciada.
Vai lá, menino, pega aqui essa televisão e devolve lá pra Dona. Não diz que fui eu, viu, moleque?  Se tu disser, já sabe, né?! Sei, sei, macho, pode deixar.
Tia, tá aí tua televisão.
De noite, abraçada com a  solidão, ela tinha, pelo menos, uma televisão.
E ele, um pouquinho menos de peso no coração.

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