As palavras escritas.

Pois não sabia por que escrevia. Mas iam saindo letras das pontas do dedos. E tudo que apertava, magoava, aborrecia, entristecia, saia por ali. A cada letra, um peso a menos dentro do corpo, um pensamento a menos na cabeça. Tinha medo de falar, mas, quando escrevia, tudo fluía. E todas as dores iam-se amenizando. E não sabia que sensação era aquela que sentia quando batia no meio do dia uma vontade desenfreada de libertar alguma coisa de dentro de si. Corria e pegava o caderno, escrevia uma palavra, ou milhares de palavras. Às vezes saiam feias, outras, bonitas. Raivosas, melodiosas, por outras, nem saiam. E pensava que falavam muito sobre ela, que diziam muitas coisas que ela não queria que fossem ditas. Mas que bom era dizer, que alívio era sentir que conseguia se expressar, que não era de todo fechada, que os inúmeros sentimentos que ali existiam podiam, enfim, ser colocados pra fora. E todo aquele silêncio indigno, impaciente, incômodo, que ficava ali todos os dias atormentando, todas as palavras não ditas podiam gritar, todas as frase meio formadas podiam se completar, todas as perguntas não feitas podiam existir, tudo que ali restava, as coisas que menos conseguia suportar, podiam, enfim, sair de dentro e parar de incomodar, com uma simples frase escrita num papel, com um texto rabiscado no meio de uma noite ruim, com um poema rimado na calmaria dos dias, com uma palavra que exprimisse toda a alegria de um momento. Pois quanto silêncio guardado que não podia falar, mas que podia escrever.

Comentários

  1. Acho que são essas palavras querendo sair, mas que não saíram é que estão me dando essa dor de cabeça simplesmente insuportável.
    Tomar um analgésico e passar elas para um papel. Ele que se vire com elas.
    Bjo!

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  2. hehehhe. só pode é ser. pobres dos papeis, que acabam tendo que suportar nossas dores :/

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