Carta

Comecei a escrever uma carta: data, vocativo, algumas palavras.
Fui beber água e voltei. Olhei para a carta.
O vocativo saía do papel, pulando para fora das linhas
Então esfreguei os olhos, porque achava que o sono já me fazia delirar, mas não,
ele continuou a rasgar o papel e fugiu dali.
É que dali ele não pertencia,
e as coisas não gostam de ocupar um espaço que não lhes pertence.
Tendo ido embora o nome,
as palavras começaram a se desmanchar, borrando o papel de caneta.
Não consegui mais ler.
É que elas não gostaram de perder o sentido,
e achavam que o vocativo não tinha direito de sair correndo daquele jeito,
sem ouvi-las, sem se despedir.
Eu também achava isso, mas não disse a elas, porque se achariam com mais razão ainda.
E não é certo dar muita razão às palavras, porque elas persistiriam ainda por mais tempo na cabeça.
E encontravam-se raivosas, com ódio do vocativo, disseram que, se era assim, nunca mais ele as ouviria.
Fiquei a olhar para o papel, rasgado, ainda mais manchado... impossibilitado de ser enviado,
depois jogado no lixo, amassado, esquecido...
Tive pena das palavras, porque ainda sobrava um pouco delas ali naquele esquecimento,
mas não havia outra solução para uma carta sem vocativo,
e elas não se contentariam com uma substituição futura,
sempre se achariam sem sentido. Eu as conhecia  bem. Que ficassem esquecidas.

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